Nódulo adjacente ao polo inferior do lobo esquerdo

Autor: Daisy Lima

Dados clínicos:

Paciente do sexo feminino, 39 anos de idade. Apresenta no exame ultrassonográfico de pescoço, nódulo adjacente ao polo inferior do lobo esquerdo da tireóide, medimdo 1,5 x 0,7 cm, sólido, de configuração ovalada, fortemente hipoecogênico. A possibilidade de nódulo tireoideano exofítico ou paratireóide foram consideradas.

Material e métodos:

Foi realizada PAAF do referido nódulo com agulha 23 G e do material obtido foram confeccionados vários esfregaços, fixados em etanol e posteriormente corados pelo Papanicolaou. Ao término da punção foi feiro um lavado da agulha com soro fisiológico, encaminhado para dosagem de PTH.

Imagens microscópicas:

Numerosos agrupamentos de células epiteliais, dissecados por rica rede vascular. Papanicolaou, 50x.

 

Capilar central espessado de onde emergem agrupamentos de células epiteliais. Ocasionais núcleos desnudos. Papanicolaou, 100x.

 

Céllas epiteliais com diferenciação oncocítica, núcleos pequenos, redondos, de aspecto monótono. Capilares permeando as células epiteliais. Papanicolaou, 400x.

 

Células epiteliais oncocíticas com núcleos pequenos, redondos, dissecadas por capilares. Papanicolaou, 400x.

 

Em destaque, numerosos vasos de paredes espessas. Papanicolaou, 400x.

 

Agrupamentos trabeculares e foliculares de células epiteliais com diferenciação oncocítica. Observar as “aberturas” na intimidade dos conjuntos celulares. Papanicolaou, 100x.

 

Conjuntos foliculares de células epiteliais com citoplasma eosinofílico, mal delimitado, núcleos redondos, de aspecto monótono. Papanicolaou, 400x.

 

Arranjos foliculares de células com citoplasma eosinofílico (diferenciação oncocítica), núcleos redondos, uniformes, com cromatina finamente granular. Papanicolaou, 400x.

 

Observar o aspecto uniforme das células epiteliais, com núcleos de aspecto monótono. Papanicolaou, 400x.

 

“Fundo” hemorrágico”, onde se observam alguns agrupamentos epiteliais e numerosos núcleos desnudos. Papanicolaou, 100x.

 

Conjuntos trabeculares e foliculares de células epiteliais oncocíticas ao lado de numerosos núcleos desnudos de aspecto similar àqueles das células íntegras. Papanicolaou, 100x.

 

Agrupamentos de células epiteliais oncocíticas dissecadas por capilares e numerosos núcleos desnudos. Papanicolaou, 100x.

 

Agrupamento frouxo de células com citoplasma eosinofílico, finamente granular e núcleos pequenos, redondos, de aspecto monótono (células oncocíticas). Há núcleos desnudos com aspecto similar ao já descrito, atestando a sua origem epitelial. Papanicolaou, 400x.

 

Conjuntos de células oncocíticas ao lado de numerosos núcleos desnudos de origem epitelial. Papanicolaou, 400x.

 

Pequeno conjunto de células epiteliais oncocíticas e núcleos desnudos de células da mesma origem. Papanicolaou, 400x.

 

Discussão:

Em algumas ocasiões, nódulos vistos ao ultrassom e interpretados como de origem tireoideana, apresentam quadro citológico associado à lesão de paratireóide. Nesta situação, solicitamos dosagem de PTH sérico para confirmação diagnóstica. Em outros casos, a ultrassonografia revela nódulo de topografia questonável (tireóide x paratireóide), sendo realizada PAAF com encaminhamento dos esfregaços para estudo citológico e concomitantemente “lavado” da agulha com soro fisiológico para dosagem de PTH.

A dosagem de PTH no “lavado” da agulha deste caso, foi superior a 2500 pg/ml, coonfirmando a origem paratireoideana da lesão. O valor de referência no sangue é de 12 a 65 pg/ml.

PAAF de tireóide com lavado da agulha para dosagem de PTH apresentam uma sensibilidade de 84%, especificidade de 100%, valor preditivo-positivo de 100% e acuidade de 84% (2). A nossa experiência com amostras obtidas através de PAAF de paratireóide, correlacionada à dosagem de PTH sérico ou intra-lesional, é similar àquela reportada por vários autores em publicações especializadas. O critério mais chamativo é a vascularização exuberante, dissecando os agrupamentos epiteliais. Outro aspecto de importância é o tamanho menor das células em comparação com àquelas da tireóide, com núcleos arredondados de aspecto monótono. A cromatina de padrão “salpicado” apontada como característica das células da paratireóide, é incomum no nossos casos. Outro aspecto de interesse, é o encontro de grande número de núcleos desnudos de origem epitelial, provavelmente devido à fragilidade citoplasmática.

O caso apresentado tem como peculariedade, a diferenciação oncocítica das células avaliadas, o que poderia resultar em falso diagnóstico de neoplasia de células de Hürthle da tireóide. Porém, o menor tamanho das células, a ausência de nucléolo, o encontro de vários núcleos desnudos, apontaram corretamente para a origem paratireoideana da lesão, provavelmente se tratando de um adenoma oncocítico.

A presença de material similar a colóide e macrófagos têm sido registrado por alguns autores, em espécimes de paratireóide, mesmo quando não tem localização intratireoideana. Assim, tais achados não excluem a origem paratireoideana da lesão.

Não há critérios citológicos confiáveis na diferenciação de paratireóide normal, adenoma e carcinoma desta glândula.

Referências bibliográficas:

  1. Abati A, Skarulis MC, Shawker T, Solomon D. Ultrasound-guided fine-needle aspiration of parathyroid lesions: a morphological and immunocytochemical approach. Hum Pathol.1995;26:338–343.
  2. Bancos I, Grant CS, Nadeem S, Stan MN, Reading CC. Sebo TJ, Algeciras-Schimnich A, Singh RJ, Dean DS. Risks and benefits of parathyroid fine needle aspiration with parathyroid hormone washout. Endocr Pract. 2012 Jul-Aug;18(4):441-9.
  3. Bondeson L, Bondeson AG, Nissborg A, Thompson NW. Cytopathological variables in parathyroid lesions: a study based on 1,600 cases of hyperparathyroidism. Diagn Cytopathol. 1997;16:476–82. 
  4. Chang TC, Tung CC, Hsiao YL, Chen MH. Immunoperoxidase staining in the differential diagnosis of parathyroid from thyroid origin in fine needle aspirates of suspected parathyroid lesions. Acta Cytol. 1998;42:619–624.
  5. Dimashkieh, H and Krishnamurth, S. Ultrasound guided fine needle aspiration biopsy of parathyroid gand and lesions. Cytojournal 2006; 3:6.
  6. Du SD, Chang TC, Chen YL, Hsiao YL, Kuo SH. Ultrasonography and needle aspiration cytology in the diagnosis and management of parathyroid lesions. J Formos Med Assoc.1994;93:153–159.
  7. Halbauer M, Crepinko I, Tomc Brzac H, Simonovic I. Fine needle aspiration cytology in the preoperative diagnosis of ultrasonically enlarged parathyroid glands. Acta Cytol.1991;35:728–735.
  8. Liu F, Gnepp DR, Pisharodi LR. Fine needle aspiration of parathyroid lesions. Acta Cytol. 2004;48:133–136.
  9. Tseng FY, Hsiao YL, Chang TC. Ultrasound-guided fine needle aspiration cytology of parathyroid lesions. A review of 72 cases. Acta Cytol. 2002;46:1029–1036.